sexta-feira, 13 de maio de 2016

disseram que estou velha demais para passar madrugadas inteiras a planejar viver mais um pouco. contemplei a barragem na lama e senti que não mais haveria tempo para vê-la sangrar novamente. segurei uma foto de infância a qual soltava pipa a beira da praia. os meus pés não mais alçariam o mar. nem a pipa ousariam alcançar. estou morrendo de viver onde fronteiras são erguidas a cada rua da minha vila. preciso atravessar os montes para amarrar o corpo as cordas de um violão. antes de segurar a voz e o choro deixo meu suor escorrer pelas estradas do meu rosto. ontem roubaram um pão da mesa da vizinha. colocaram flores de plástico na cabeceira da minha cama e fecharam as cortinas. espero um sopro do vento abrir alguma fresta. as boas novas estão velhas demais para o meu pouco tempo. mesmo que o amor não volte atrás tudo retrocede ao vão dos precipícios. amanhã cantei num restaurante onde as pessoas comiam tudo menos música. ganhei um colete a prova de rosas amarrado a uma camisa de forca. falsifiquei passaportes que me levassem de volta ao futuro. rasguei o título de matéria prima. chutei o balde vazio de água da chuva. subi na cadeira sem pernas e gritei inutilmente.


Pierre Tenório

Nenhum comentário: