quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

de vazios
preenchido
o vazio
tanto
pranto
transbordando
açudes
rios
tanto
tempo, tão
pouco
tento.

Pierre Tenório


PESADELO MONOTEÍSTA

Não acreditaria em um só Deus
se Ele não me tivesse aparecido em
carne e osso durante um sonho.
Simples, me entregou um baú com
três tesouros:
Uma partitura musical totalmente ilegível, mas,
que só em olhar pra ela, você entoa
as mais belas melodias.
Um livro antigo totalmente em branco,
para que eu pudesse escrever
textos mais belos que os bíblicos.
E por fim, um fruto envenenado
de tão podre, não era proibido.
Ele me olhou no fundo dos olhos
enquanto eu mordia o fruto
e lentamente sugou para si a
minha alma, dizendo:
- Só assim tu entrarás no paraíso
de outros abismos,
onde a única
forma de salvação
é acordar sorrindo.

Pierre Tenório

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

CONTOS DE FACAS PARTE 2

a coisa mais bonita que aconteceu
era tão linda, mas , tão simples
que ignorou todos os sentidos e
mesmo ceifando toda ou qualquer possibilidade de sonho acordado;
na escuridão, vive me absorvendo aos próprios
pesadelos.

Serial killer
Stephen King
Shakespeare

o pai das crianças
especiais, divorciado da
vida, ejacula carícias
em baixo dos lençóis
e me deixa toda
molhada
de sangue, no escuro.

existe um molho
de chaves em cima dos
corpos secos,
chaves de venda
aos olhos,
você os fura e
verá a alma
de todos os seres.

minhas vísceras
dão um bom
tira gosto, te amo.

Pierre Tenório
CONTO DE FACAS

és a coisa mais bonita
que aconteceu em minha vida;
até agora.
és a morte do amor
que me estilhaça sem temor;
a qualquer hora.

Pierre Tenório

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

FRIEZA SUB(VERSIVA)

meus versos abrigam
as profundezas
do inverno.

Pierre Tenório
CASTIGO

tão só
que acompanhado
pela solidão
o coração inteiro
vira pó
em cheiro
instigo perfumes
desato nós
e me lanço
em inúmeros
gumes.

Pierre Tenório
VISÃO NOTURNA

não sei tudo
sobre nada
sobretudo
sei de tudo.

Pierre Tenório
PENTELHO

o homem ideal
é aquele
que faz mal.

Pierre Tenório
TOURO SEM LAÇO

o chifre
segura
o cabaço.

Pierre Tenório
NECROTÉRIO

resíduo de cinza
que abriga a lareira apagada,
numa lasca de lenha
imune ao fogo
do Alasca aquecido;
se livra do gelo
e esquecida pelo vento,
faz um apelo:

se nem queimo
ou regelo,
esqueça-me ao fogo noturno
ou pegue o chinelo

e sobre os restos
de elo;

dissolva-me ao vento
em sopro

ou me oprima
ao chão
em obra-prima lavada

por água e sabão.

Pierre Tenório
AUTOAJUDA

augusto
meu cu
ry, de ti.

Pierre Tenório
INQUIETUDE CÓSMICA

Entre os dedos
roça a caneta,
num vai e vem
de tantos cometas.

Linhas tortas
decifram estrelas,
acendem e apagam
inúmeras letras.

Nas explosões
de tal universo,
dissipo a paixão
em ácidos versos.

Porém enquanto
não houver razão,
nossa tinta acaba
sem declaração.

Vou à lua em
transição alheia,
somente para
que você me leia.

Pierre Tenório
CABELOS

odeiam tudo
o que faço,
porque desastrado
lhes causo
embaraço.

nas tranças
dessa paixão,
fios desatentos
fogem
em contramão.

multidescoloridos,
descolam
um jeito
de não serem
partidos.

quando ficam
carentes,
imploram
por finos
pentes.

sempre que
os hidrato,
por falta dos
teus carinhos
apenas

os mato.

Pierre Tenório

24/01/14

COCHILOS

sonhar
é o formato
ideal para
aumentar
saudade,
matando-a
em ilusão
real.

Pierre Tenório
PRÍNCIPE

primeiro, ato:

aquela menina
queria sentir
o cheiro do
mato

mataram
as plantas,
cortaram
as flores;

insistente,
cheirando o vento
inodoro

ela ria,
o odor
da saudade
inundava o jardim
sem dores

agonia quieta
em sinfonias

enquanto a floresta
insistia em
ruínas rimas,
brotavam
amores

de mãos dadas
a madrugada,
catava espinhos
pela ventania

quando o sol
nascia
ela ria,
e alguém
trancava os
portões.

caminhada
na estrada sem
fim,
não haviam cores e
diante atmosfera
ferida,

sorria
a moça

prisioneira
do corpo,
vivo
ou morto;

saudade perpétua

deitada nos restos
matagais
e ao som de quaisquer
sons passados;
assobios.

segundo desato:

através dos
olhares
de um cego

o espírito
acreditava
no gesto de
palavras inúteis,
aprisionadas ao
nada

quietas, passarinhos

enquanto devorava
todas as folhas
sem apetite,
o passado
lhes trazia
heranças que
iam se apagando

em camping
deserto,
jardins de crepom
coloriam

buquês
em rastros
de borracha,
ofuscados
pela fumaça

era paisagem

acendia, acenava, despedia
e sufocava

até abrir os olhos,
no sorriso
do sapo.

não haverão
outras
manhãs.

Pierre Tenório
CRISE DE 24 (horas)

ontem amor,
chorei.
hoje amor(r)i.

Pierre Tenório
B.O

ficaram com a seda fina
que comprei por bem barato
agora sem um centavo
fumo em seda de sapato.

não fui o único lesado
e a quem doer, que doa
mesmo em pouca quantidade
a coisinha era da boa.

tudo aquilo aconteceu
por falta de atenção
tive que ficar calado
pra não causar confusão.

Os "gambé" eram educados
tiveram boa conduta
mas, no fundo eu senti
que eram dois filhos da puta.

Pierre Tenório

tiro ao alvo

28 de janeiro de 2014 às 10:23


Lembro que nunca esqueço

aquele primeiro poema que me foi dedicado na vida,

escrito numa folha de caderno com letras de alfabetização,

era da garota mais bonita da sala.

Mesmo pirralho, me surpreendi por que daquela poesia ser dedicada a mim,

ainda mais da garota que todos os garotos deveriam sonhar por debaixo dos lençóis.

Dias seguintes, ela assumiu para toda sala que gostava de mim,

confesso que foi o meu primeiro choque de dúvida,

não sabia o que fazer, mas sabia que o que mais admirava nela,

além dos seus olhos esverdeados,

eram seus materiais escolares super coloridos e suas roupas de menina adulta,

passei a admirar também sua coragem em assumir um sentimento,

mesmo que infantil, cheio de terceiras intenções e ainda mais para mim,

o alvo pendurado no mural da sala, cheio de dardos e estrelas azuis,

que com o passar do tempo, arderam em chamas.

Confesso que não era exatamente o tipo de garoto ideal. (ainda hoje)

Mas, o importante mesmo nisso tudo, foi o poema;

mesmo que por piedade, a garota demonstrou sentimentos.

E de alguma forma, mesmo que não recíproco,

acendera um turbilhão de outros sentimentos dentro de mim.

Nas minhas impuras maquinagens pueris, ainda pude pensar se ela

futuramente tomaria gosto por sapatos femininos 42, mas, hoje continua

muito bela e casada com um homem ideal, filhos e longe.

Enquanto eu por debaixo dos mesmos lençóis, continuo sonhando não com os mesmos

garotos, mas, com os mesmos dardos.



Pierre Tenório
JOGO DE ESPINHOS

Rosas carnívoras
pretas e brancas,
comem umas
as outras
em gesto de
damas.
Tabuleiro de
grama;
vencer dores
nada importa,
quando o objetivo
é acumular
amores.
De prêmio
quero tuas mudas
merdas,
para adubar
esse jardim.
Enaltecendo
rainhas e torres
de babel,
aprisiono em
xadrez de sangue,
o grito dos escravos
que cavalgam
em fuga.
Que comece
outra partida.

Pierre Tenório
no fundo escuro, meus desencantos me encantam em forma de movimentos aleatórios, desacato ao vento dos cataventos em forma de sopro divino dissolvido, risos.

me enterro no espelho,
me encontro em contramão, ainda escrevo.

Pierre Tenório
PRÉ-MUNIÇÃO

ouvi o disparo;
em meio a correria
preferi salvar
esse poema ensanguentado.

Pierre Tenório