segunda-feira, 23 de maio de 2016

mesmo que não
o poema desgraça
não tem força rima
sina farsa
vida não tem raça
negra rubra
desgraçada
sem foto foco
rótulo
só
trapaça beija
rala tato fato
ato
graça
qualquer coisa
vinho
tinto branco lombra
coisas rasas
pedro bombadones
fred luna loca
laça
coisa me abandono
nas palavras
lágrimas
desaguam
a toa
fala sério
vamos todos
morrer
de rir
do nada nada
córrego
devassa
tua lombra.

Pierre Tenório





domingo, 15 de maio de 2016

razão

do fundo
avisto
imensidões.

Pierre Tenório

sexta-feira, 13 de maio de 2016

disseram que estou velha demais para passar madrugadas inteiras a planejar viver mais um pouco. contemplei a barragem na lama e senti que não mais haveria tempo para vê-la sangrar novamente. segurei uma foto de infância a qual soltava pipa a beira da praia. os meus pés não mais alçariam o mar. nem a pipa ousariam alcançar. estou morrendo de viver onde fronteiras são erguidas a cada rua da minha vila. preciso atravessar os montes para amarrar o corpo as cordas de um violão. antes de segurar a voz e o choro deixo meu suor escorrer pelas estradas do meu rosto. ontem roubaram um pão da mesa da vizinha. colocaram flores de plástico na cabeceira da minha cama e fecharam as cortinas. espero um sopro do vento abrir alguma fresta. as boas novas estão velhas demais para o meu pouco tempo. mesmo que o amor não volte atrás tudo retrocede ao vão dos precipícios. amanhã cantei num restaurante onde as pessoas comiam tudo menos música. ganhei um colete a prova de rosas amarrado a uma camisa de forca. falsifiquei passaportes que me levassem de volta ao futuro. rasguei o título de matéria prima. chutei o balde vazio de água da chuva. subi na cadeira sem pernas e gritei inutilmente.


Pierre Tenório

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Fugiam as palavras
nada mais havia a ser dito
tentei inúmeras vezes sangrar
as pedras inutilmente
De bruços sobre elas
lhes sugava a alma com desvelo
Mirando ao nada
ninei ao som do vento
todas as almas
que os olhos abrigavam
Sozinho pude ouvir
os zumbidos que
acalentavam os ouvidos
Gritos de socorro
pedidos de namoro
pausas dramáticas musicavam o silêncio
preenchiam o vazio vislumbrante
da minha própria alma avessa.
Pisoteei as flores do caminho
extraindo orvalho para os labirintos
venosos do meu corpo árido
Destilei veneno das nuvens
suor de frutas
Hidratei os cabelos com areia das praias
desertas
Bebi toda água do mar como combustível
para apagar o passado.
apagar.
Procurei novos significados para os medos
e com a brutal força dos arcanjos
pude sorrir dentro de um pesadelo.
Galopei em corcéis de asas cortadas
por estradas sem gravidade.
Procurei um cantinho escuro entre as estrelas
onde pudesse me revelar poeira.
com total autoridade
sobre qualquer sentimento
qualquer.

Pierre Tenório

sexta-feira, 6 de maio de 2016

num belo dia
morri vestida
de música
escrevi meu nome
nas fotos
para lembrar
que um dia
fui
única
para
alguém
e
voltei
outras
igual
a todas
as outras.

Pierre Tenório
construí uma casa
na árvore
e acabei me tornando
frutífero
agora sobrevivo
distribuindo
nutrientes
e simpatia
como uma frutinha
venenosa

dentro de uma bolha
detergente
tornou-se
o ofício
mais doce
alimentar humanos
e bichos
papões
dividindo o mesmo
planeta.

Pierre Tenório




terça-feira, 26 de abril de 2016

Alma não tem irmã gêmea

quando desafino
minha alma chora
pálida
resplandece ao nada
quando a nota foge
ecoando ao longe
o corpo aborta
voa cega alma
vagando impávida

crio minha alma
fora do meu corpo
dentro da cabeça
mas, é de mentira
tudo é de mentira
imaginação
meu ouvido dói
quando desafino

ô alma danada
tu és inventada
então cante certo
ou fiques calada

tu aí sentado
pode até tentar
mudar de instrumento
mas, não poderá
trocar uma alma,
mesmo que seja
por outra penada

alma é alguém
que não vai à luta
com múltiplas armas
ou odores letais,
ainda há quem diga
que são imortais

almas usam corpos
e corpos usam almas
de certas pessoas
para ecoar gritos
ou talvez niná-las.

quando desafino
morre minha alma
e o corpo nada

dela musicá-la.

Pierre Tenório