quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

TOURO SEM LAÇO

o chifre
segura
o cabaço.

Pierre Tenório
NECROTÉRIO

resíduo de cinza
que abriga a lareira apagada,
numa lasca de lenha
imune ao fogo
do Alasca aquecido;
se livra do gelo
e esquecida pelo vento,
faz um apelo:

se nem queimo
ou regelo,
esqueça-me ao fogo noturno
ou pegue o chinelo

e sobre os restos
de elo;

dissolva-me ao vento
em sopro

ou me oprima
ao chão
em obra-prima lavada

por água e sabão.

Pierre Tenório
AUTOAJUDA

augusto
meu cu
ry, de ti.

Pierre Tenório
INQUIETUDE CÓSMICA

Entre os dedos
roça a caneta,
num vai e vem
de tantos cometas.

Linhas tortas
decifram estrelas,
acendem e apagam
inúmeras letras.

Nas explosões
de todo universo,
dissipo a paixão
em ácidos versos.

Porém enquanto
não houver razão,
nossa tinta acaba
sem declaração.

Vou à lua em
transição alheia,
somente para
que você me leia.

Pierre Tenório
CABELOS

odeiam tudo
o que faço,
porque desastrado
lhes causo
embaraço.

nas tranças
dessa paixão,
fios desatentos
fogem
em contramão.

multidescoloridos,
descolam
um jeito
de não serem
partidos.

quando ficam
carentes,
imploram
por finos
pentes.

sempre que
os hidrato,
por falta dos
teus carinhos
apenas

os mato.

Pierre Tenório

24/01/14

COCHILOS

sonhar
é o formato
ideal para
aumentar
saudade,
matando-a
em ilusão
real.

Pierre Tenório
PRÍNCIPE

primeiro, ato:

aquela menina
queria sentir
o cheiro do
mato

mataram
as plantas,
cortaram
as flores;

insistente,
cheirando o vento
inodoro

ela ria,
o odor
da saudade
inundava o jardim
sem dores

agonia quieta
em sinfonias

enquanto a floresta
insistia em
ruínas rimas,
brotavam
amores

de mãos dadas
a madrugada,
catava espinhos
pela ventania

quando o sol
nascia
ela ria,
e alguém
trancava os
portões.

caminhada
na estrada sem
fim,
não haviam cores e
diante atmosfera
ferida,

sorria
a moça

prisioneira
do corpo,
vivo
ou morto;

saudade perpétua

deitada nos restos
matagais
e ao som de quaisquer
sons passados;
assobios.

segundo desato:

através dos
olhares
de um cego

o espírito
acreditava
no gesto de
palavras inúteis,
aprisionadas ao
nada

quietas, passarinhos

enquanto devorava
todas as folhas
sem apetite,
o passado
lhes trazia
heranças que
iam se apagando

em camping
deserto,
jardins de crepom
coloriam

buquês
em rastros
de borracha,
ofuscados
pela fumaça

era paisagem

acendia, acenava, despedia
e sufocava

até abrir os olhos,
no sorriso
do sapo.

não haverão
outras
manhãs.

Pierre Tenório