Alguém me disse
que odeia poesia
na hora exata
fiquei de pau duro
tentei disfarçar
os poemas que vinham
na minha cabeça;
deu vontade de cuspir
na cara dele.
Pierre Tenório
I.
tudo no meu tempo é meu
eu e aquilo que invento
um pouco entediada, mas,
feliz com o clima
logo recomeçam as atividades
aulas, aulas, trabalho novo
busca por mais trabalhos
já que o salário é pouco
músicas novas
poemas novos
novos encontros
ocupações
quero ocupar corações
ocupar o meu coração
e meu sono
ocupar as horas que fico com fome
ocupar as mentes em cima da hora
acampar na varanda do apartamento
no fim de semana com o namorado
deixá-lo respirar um pouco ao meu lado
e sair sozinho
II.
escrevo o que gostaria de ler
estou morta
como
durmo, fumo maconha, espero acordar,
parei com cigarros, escrevo, apago
e olho para a tela do telefone
esperando uma mensagem no whatsapp
uma mensagem que nunca chega.
e não é "parabéns você foi sorteado"
logo tudo começa
a ficar cansativo de novo
eu vendo tudo
sem um real no bolso
volto pra casa na chuva
vagando a pé pela rua
somente o frio agasalha
e ninguém quer me pagar
pelo que faço melhor
jogam na minha cara
jatos de água gelada
a mensagem foi entregue,
não visualizada.
III.
desempregada, fui despejada
e o namorado deu-me um beijo
de despedida.
Pierre Tenório
unha por unha
vagarosamente
roeu todo esmalte
de cada dedo
que apontava
para a porta
da minha face
quase decidi voar
do 16° andar
vagar pelo fundo
do rio, como um peixe
vivo dormindo
acordado
não deu tempo
as flores murcharem
nas minhas mãos
quase desmaiei
por medo de falar:
não sentirei saudades.
Pierre Tenório
queimando as páginas
decidi não acordar mais
só pra ficar sonhando com quem já fui
desapareci dos becos, da sala de aula e do carnaval
tentei fugir da tua boca, fumar o teu cigarro
tuas bocas parecem deus perto
pulei a fogueira apagada
e as brasas encontraram meus sonhos acesos
os sonhos de mim
quem sou não importa, meu bem
nem tampouco o que me torno
e tudo em torno
encontro a melhor rua para tua fuga
te convido para um chá
me deixa em paz já que te amo e grito para mim
te amo ano após amo
é uma pena que você vaga a mesma merda
os anjos mijam sobre nossas cabeças
já tive medo passando pelos meus rascunhos
e o vento trouxe de volta o animal
"quando todos vão embora eu me tranco aqui e tudo bem"
para você escrevo
que sempre estive onde
você não procura e
não me empresto pra você.
Pierre Tenório
Não tente beijar um poema
da última vez que tentei
beijar um poema
ele pediu para
que eu me afastasse
de mim
sem precisar me tocar
disse que para beijá-lo
eu deveria saber
o quanto pesa uma alma
diante do universo.
Pensei que seria impossível
beijar o poema um dia
tocar os meus lábios no corpo
do poema, que ria
mesmo que não tenha corpo
nem rima, mesmo que não tenha alma
não tenha
Eu disse para o poema
que estava a escrever
no momento do desejo
pelo beijo
este mesmo que estais lendo
- sou apenas quem não sou
e estou com tua alma
só não sei como ela cabe
no bolso da minha calça
o poema desmaiou
no fundo do meu abraço
não havia mais sorriso
nem cor alguma em seus lábios
Nunca tente beijar um poema
seja apenas quem você não é
e a poesia te come
como quem não quer
o poema não te beija
também não faz questão nenhuma de você.
Isso não é um conselho
é apenas um falso testemunho
Pierre Tenório