segunda-feira, 14 de março de 2016

ALCOÓLICA

Me sinto um mostro
e por enquanto
você não pode
me penetrar,
se não, te mordo
até sua alma
poder voar.

Fiques calado
enquanto o falo
que me amordaça
grita que nunca
serei tua raça.

irei embora
pelas calçadas;

como você,
sou vira-latas.

Pierre Tenório

segunda-feira, 7 de março de 2016

escrevo e jogo poemas fora
no lixo denso das sabedorias
nos vasos que há dentro dos corpos
nos pratos que não mato a fome
parece bobagem (ou frescura)
mas, por mais vazio que sinta
meus versos são calejados
e somente posso sentir
d'um jeito bem semelhante
ao que todo mundo sente
meus versos são para as folhas
das árvores, baleias, astronaves
para qualquer olho cego, morto-vivo
ou talvez para os amigos
dos amigos
ninguém mais
meus versos são para o meu ex namorado
e também para o seu
passado e futuro, nunca presentes
não, não são presentes
pálidos
os poemas são fatos ou fotos,
fitas de vídeo e cetim
vícios, viço
jogo poemas fora
mas, não me atreveria
jogar um papel de bala
desarmado na calçada.

tenório, pierre

quarta-feira, 2 de março de 2016

SORRISO ESBOÇO

Observe sempre
pequenos detalhes
mas, nunca se prenda
aos grandes olhos
de qualquer pessoa

faça um negócio
quebre os espelhos
por toda casa
retire os óculos

vista a cegueira dos animais
siga instintos elementais

seja a poeira
das folhas brancas
desequilibre-se
rente aos tremores
mergulhe fundo
em erupções


não precisa sorrir na foto
para gargalhar do outro
pode esquecer essa história
daquele que ri por último.

Pierre Tenório

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

as moscas passeiam pelas ruas
pousando em nossas macaxeiras
com manteiga derretida sobre
nós dançando agarrados
a nós mesmos
numa dança
de algum jantar
em plena guerra
espera

não lanço sorrisos
pegue a mão dos meus olhos
e siga sempre pra onde
não quiseres

contra dance
contra eu

faça-me o favor
de pisar meu pé

sobrevoando as lógicas
das nossas semióticas.

Pierre Tenório

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Por mais e mais
e mais palavras
ditas por amor,
o tempo mesmo
é de ódio.
por mais fáceis
palavras não são
frágeis
e nada se igualará
à ira do silêncio.
bobagens da linguagem,
do que ela dá
e tira
e atira.

Pierre Tenório
poema de domingo à tarde

não
eu não quero morrer agora,
preciso sentir o cheiro da noite
e da privada

sentir o beijo das almas
e o corte das pálpebras

eu não quero morrer
porque não me permito
desaparecer pelos buracos
brancos do esquecimento

não, eu não quero morrer
ainda preciso abraçar o vento
concreto e não
real.

Pierre Tenório

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Súdito

Arrumei as malas
simulando fuga
naveguei parado
por terras de nunca

Conheci paisagens
as quais desprezei
dei misericórdia
descumpri as leis

Na imensidão do teu corpo
ousei ser tripulante
por lá fiz de tudo um pouco
só não pude ser amante

Me perdi nas próprias palavras
inclusive as que calei

Queimo todos os castelos
onde não posso ser rei.

Pierre Tenório