domingo, 8 de novembro de 2015

CASCAVEL

posso sentir de longe
o cheiro da tua pele

meu nariz não alcança
insisto em lamber o medo

na secura que abriga-me os lábios
no fundo do teu segredo

e até propor uma dança
com as sobras da esperança

por mais pequena que seja
é meu presente ao chão

que insistes em desbravar

nu corpo em meus pensamentos
no toque que sempre corre

esse é o tipo de amor
que alimenta a vida;

rastejarei sorrateira
pra alma sugar por inteira.

Pierre Tenório

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

AFOGADO

queria sair correndo
pro longo abismo que crio

a cada passo que deixo
nas profundezas de mim

me desmanchar no caminho da queda
engolir objetos que nunca digiro;

vomitando pedaços e
desatando os laços

do meu vestidinho
pra morrer bem nua

na tua.

queria seguir os caminhos
que insistes despistar

comer alpiste em gaiolas
pra poder me libertar

e ser cozido a lenha
em fogões sem bocas falantes;

podemos ser nosso prato
principalmente quando

ainda estivermos vivos
aos prantos embriagados

com o doce sangue de Cristo;
brincaremos com as hóstias

derramaremos vinho
vamos fazer no altar

o amor de Deus ser real

daí

iremos direto pro inferno
queimar todas as verdades

afinal de contas
você sempre ri de mim

e dessas minhas blasfêmias
quando adentramos a igreja

pra fotografar os santos;

- você precisa sempre postar todos os momentos?

vestimos tudo que é de mentira
e o mundo há de nos despir

sempre

pois no fundo

a queda é sempre rasa
sentiremos ou não

os nadas.



Pierre Tenório

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

teu andar que segue rente
ao meu passo embriagado

indiferente quebranta
por completo o assoalho

que tu mesmo construíste;

tatuando-me a alma
com pedacinhos de farpas.

Pierre Tenório

domingo, 1 de novembro de 2015

DO SANGUE QUE ESCORRE

descanso sem fome
comi toda vida
na noite de ontem

por um só momento
me desconstruí

achei que não era
capaz de fingir

invadindo os fins;

de dentro para fora
há de chegar tua hora

e o fogo tomará conta.

nem sei se estou morta
só quero tomar pra mim
qualquer juventude rubra

no vão das mentes espertas
há sempre uma porta aberta

terei que ficar por fora
transmutando las piedras
em desumanas obras

está nos pingos das velas
está nas gotas de esperma
está no fio da veia

também no medo das tintas
que escorrem lente às telas

estarão profundamente
os buracos dos olhos

aterrorizando o amor.

Pierre Tenório




terça-feira, 27 de outubro de 2015

lo-fiques

queria contar nossa história
em alta definição

mas, tudo será gravado
por um radinho de mão.

Pierre Tenório

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

perdi todo o medo que sentia das palavras quando comecei a ouvir o silêncio gritando pra eu ficar longe em sussurros ao pé do ouvido ganhei coragem pra enfrentar ausências e perigos somos conchas carregadas pelas ondas do destino que inventamos no ouvido pensante, nunca aprendi a pedir perdão mas sempre que seguro sua mão e nossos caminhos se cruzam nos meus olhos opacos o desejo de viver se reaviva mesmo cuspindo a cada ressaca pedacinhos de nós dois inexistentes se há sempre despedidas sempre haverão ultimatos.

Pierre Tenório

terça-feira, 13 de outubro de 2015

pensei que fosse fácil
escrever um poema
e comecei a escrever
vários poemas fáceis

sem pensar em nada

qualquer coisa era um poema
bastava estar impresso

ou impressionar

depois eu nem falava sobre a fome
nem sobre a ditadura

pensei que escrever um poema
fosse apenas ser
o protagonista
da carta de amor

que bebe uma taça
de orvalho esperando
o bem-me-quer
mau-me-quer

e morrer por isso.
agora

não consigo escrever porra nenhuma
apago tudo quanto penso que acabo
e continuo sem saber de quase nada

leio pra evitar ficar sozinho
não depilo as pernas
gosto como pelos aquecem
e enfeitam o corpo

apelo para que a canção
me deixe
dormir

entendo por fim que o poema
é um grito;

e tem gente que vive calada
escrevendo nos olhos
dos outros

poemas fósseis.

Pierre Tenório