quarta-feira, 12 de setembro de 2018

BRUXARIA

quero ficar perto dele
arrancar fios de cabelo dele
amo o roçar da pele
cheirar do vento à epiderme

quero tudo dele amá-lo
chupar todo como falo
pra depois chutar pro lado

como pó, virado, alado.

Não basta ficar viciado
ter o homem como um diabo

perfumes esvaindo pela roupa
e a mãe gritando: "pra casa, tô rouca."

visto-me do último poema que renasce das minhas pernas e tuas mãos que não acordam nunca, permanecem inúteis,

(Pierre Tenório)

Escuto, não pauso
me paro, derramo
no antes, depois
em quando éramos manos

Me ilustro em poemas
ilustres inúteis



sexta-feira, 31 de agosto de 2018

O peixe e o touro

Há poeira
e chuva

Nesta contra
aliança

O peixe se dá na pesca
O touro na dança amansa

O touro vive afogado
O peixe morre na lança.

Eu ainda não sei como terminar este poema

(Pierre Tenório)

terça-feira, 28 de agosto de 2018

POEIRA

longas horas de escuta
os teus olhos desprovidos
rente aos meus desprevenidos
e as demoras foram curtas

vida que parece aquilo
mas, com muita calmaria
há lugar pra bicho grilo
cigarras em cantorias

uma nuvem de fogueira
luz ardendo em nosso corpo
o dia amanhecendo
você partindo de novo

eu bicho besta chorando
pedindo pra tu ficar
tu repetindo meu choro
mentindo que vai voltar.

(Pierre Tenório)

domingo, 26 de agosto de 2018

fez carinho
ao travesseiro

recebeu em troca
beijos

de cinema.

desligou o computador
e dormiu sem pensamentos

nem sonho
nem pesadelo

só poemas.

acordou molhada
e foi trabalhar

serviu as mesas
sem descansar

na mesma hora, exasperada

abriu a porta
de casa

e entregou-se ao mesmo
nada.

a música no pensamento era a única
outra

(Pierre Tenório)

Beija flores
sobre meu colchão
O vazio da rua sem saída
A pedra presa no corpo
de outra pedra
A mão tocando as costas
como Deus a sua obra

Ansia de comer tijolos
um sobre o outro, feito casa
A asa fincada na vértebra
o corpo despido de calma
Meu peso suportando o desprezo
desliza como semente
O  reconhecimento do amor
engolido pela saliva.
Tudo escorre

(Pierre Tenório)

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Amor da gota

disseram que ando triste
à procura dos teus olhos

consigo ver-te em silêncio
lembrando tudo que posso

mas nada me faz feliz
como o olho do teu cu

que mesmo sendo lembrança
hei de levar como herança

teu corpo ao meu corpo nu.

queria bem te escrever algo profundo,
talvez impossível ou criar um mundo;
mas só posso ler teu riso de mim
teus cabelos desbotados da memória

(Pierre Tenório)