domingo, 17 de dezembro de 2017

eu só tinha dinheiro para andar em um parque e tive que escolher entre comer um pastelzinho de forno ou ficar mais um tempo esperando as coisas se realizarem dentro de um algodão doce você não estava mais daí então eu descobri o motivo para existir aos poucos quando disseram que eu deveria ser alguma coisa lancei minha cédula na paisagem sem vento e ela caiu sobre o meu sapato só faltava mesmo vento mas inventei que ela queria ficar comigo sem ser gasta e nem bolsos eu tinha na minha saia

Pierre Tenório

presto muita atenção
quando ele fala
e me cobra uma razão
para viver esse silêncio
que afeta os ouvidos do mundo
nessa nossa conversa
sobre o mundo só
nossa conversa
tão só
quanto nós dois

dobrei as roupas
tirei as roupas
você rasgou minha peça
favorita do quebra-cabeça
e eu perdi a cabeça
do teu corpo
sem roupas dobradas
tiradas na frente da
porta do banheiro
rasgadas nas mãos

Pierre Tenório

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

fui assassinado
e deixaram meu corpo
com todos os sentimentos
intactos e profundamente
enterrados sob a carne
crua e podre
e nos ossos
havia pena e tinta

isso, os ossos
sobrevoando a terra firme
das palavras
tatuadas por debaixo
da pele carnal
e limpa
fui assassinado
pois que nunca
sobrevivo aos momentos
que te amo

isso mesmo, você existe
e me matou
carinhosamente
quando disse boa noite
e a lua se tornou poeira
diante os olhos
e o corpo escreveu
a última palavra
do poema vivo

não é fácil sobreviver
aos pedidos de
despedidas

apago os eu te amo
da lista telefônica
ainda não te morri

Pierre Tenório

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Se alguém te deixar
triste, sorria
para o próximo. 



(Pierre Tenório)

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

avisto o shopping e
tenho a estranha sensação
que não existe morte

e Jesus virá de helicóptero
a qualquer momento
tirar fotos

penso que a vida
dali em diante
por si só
devido as cores

eternamente será

vou aos parques caros
e saio sem pagar
feliz escolho
qual não ir

as mães seguram
as mãos
e as soltam
pra nunca mais.

ficamos lençóis
quase com palavras

o cheiro
da praça
de alimentação

o cd novo
no toca discos
do carro

a paisagem
agarrada no braço

e por incrível que pareça
sempre compro
nada.

e ganho nadas
o cheiro do livro no armário

Pierre Tenório

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

estou cega com o brilho
da lua
e aconselho-te amar
quem não responde
aconselho-te comprar
um conselho do meu livro
de péssimos conselhos
eu poderia quebrar o
telefone para me desligar
de você.

banho meus olhos
em milhas e léguas

a alma em contragotas
de paraquedas.

Pierre Tenório

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

troquei um punhado de alface
por uma porca gorda e faminta
vegetariana até as orelhas quando eu a olhava sentia o gosto da feijoada
eu mesmo matei a porca
e dentro dela tinham filhotes
de porquinhos e eles ficaram vivos
fora da porca sem cabeça

Eu comi a porca
assada na brasa
com cerveja.

jesus te ama
santan te ama;
nos cumprimentamos
e os irmãos da casa vizinha
me mandaram para o inferno

Vi os filhotes
crescerem gordos
famintos e
manifestados
com o espírito santo.
Deus me comeu no almoço
de amanhã
e eu me senti uma merda
divina e onipresente.

Pierre Tenório