terça-feira, 2 de setembro de 2014

GALOPES

a noite cavalga perigosa
enquanto os
deuses descansam;

a noite é o próprio
cavalo
dentro do nosso corpo
e órgãos,
alguns drinques
e diarreias
proferidas pela
boca e
diafragma,
o olho do meu cu
não aguenta ouvir
tanta água suja.

há quem diga
que somos pessoas
más, também há quem
nos deseje a morte,
e quem não entenda nada,
nem signifique nada
nem deseje bom dia
há quem seja mau;
e mal educado.

cargas positivas
e negativas

quem escreva
e quem leia
quem sorria
para flores
e converse com
cachorros
alimente
macaquinhos
roube sonhos.

há quem rime com você.

há quem o nosso dia estrague
e quem destrua a própria vida

há mestres
e rádios.

há quem construa.

há belos mistérios;

também
hipócritas sorridentes
que alimentam
nossas fraquezas
e te esfaqueiam
pelos brônquios

mas, também

há dias de sorte;
quem salve
e quem tu salves,
e a noite

há também

cavalos
sem cavaleiros.

Pierre Tenório









segunda-feira, 1 de setembro de 2014

OVOS FRITOS

atearam fogo
num caminhão
carregado
de doces

em praça pública
com todos dentro
doces queimados

a fumaça deixou
as velhinhas
as crianças
professoras
esperanças
nos galhos
e cachorros
e gatos
vendo tudo
diferente
colorido
der
re
ti
do

o motorista
saiu correndo
tirando a roupa
e mergulhou
na fonte
do centro
em frente
a igreja

o padre
achando lindo
entrou na dança
abriu a roda
e pôs-se
a rodar
na ciranda

felicidade era
coisa fina
quase obra prima

caminhão em chamas
quase tudo em brasa

só restou o cara
da lanchonete
que ateou fogo
no caminhão
cheio de
doces

triste
e sozinho
com uma máscara
de gás.

Pierre Tenório



domingo, 31 de agosto de 2014

teus

guardo rascunhos
rasgo espelhos

quando rodeio
entre os casais
sinto concreto
toda lembrança
dos teus pentelhos;

me baseio
no não ser
não ouvir
dizer não

mas, fazer.

quebro réguas
meço inteiros

de nada saber
e tudo.

Pierre Tenório




sábado, 30 de agosto de 2014

VENDAR

flutuara
em atmosfera
distante
astronauta
em paralelos
de sentir
adiante.

não quero ser deus,
sim eu.
não quero ser eu,
sim deuses.

não quero perder
ganhando a face,
nem quero ganhar
perdendo a classe

[equilíbrio eloquente;
palinóia inerente]

não quero chorar;
orvalho.
não quero sorrir
trancado.

só sei o que quero
quando não sei.

Pierre Tenório






sexta-feira, 29 de agosto de 2014

amor de cão

tenho dois amigos
cães
que me levam para casa
me lambem
e rasgam minha roupa
sem querer
não falam nada
mas, fazem sentir
como muitas
mães
não.
tenho mais de três amigos
cães
uma delas já pariu
tantas vezes
que não consegue
carregar suas tetas
de tanto
amor, para dar
como muitos
amantes
não.
outro, morreu
de doença, sofrido
incompreendido,
bem cuidado e
amamentado
como muitos
outros
não.
a outra
foi sacrificada
morta e
sepultada.
filhotes adotados
alguns
tão bem cuidados
tantos
amargurados.
os que vivem
nas ruas, são
os meus amigos
marginalizados.
como é bom
ser cão,
nesse mundo
humano.

Pierre Tenório


PURGATÓRIO

Pude sentir a ira nas expressões faciais daquela mulher,
de uma hora pra outra ela batia o martelo com mais força,
o prego caía e ela continuava batendo com força o martelo,
até quebrar as paredes.

E nas paredes do deserto ensolarado por SETE DIAS E SETE DIAS,
SEM NOITES, me tornei uma sombra escura e maldita, perseguida
por corpos a procura de uma, como quem corre do sol de um
dia-meio
corrido, sem teto e
sem tato.

Ela faz de conta, sorri e corre pelos campos secos
até que sedenta, senta sobre uma linda pedra preciosa
sem nenhum valor e adormece;
sonha com uma noite inteira
procurando conchas, pois havia um
mar;
de pesadelo bebe um pouco daquela água
salgada e sorri de si
e do deserto de si.

Acorda no sétimo dia, rastejante
a procura de uma sobra de parede que
a trouxesse sombra, mas, a ultima que restava,
ela derrubou com uma
martelada;
antes de morrer

Pierre Tenório

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

ABISSAL

inerte
em meio aos escombros

relembro
o final dos contos

que escrevi.

deleto
inícios

e iniciais;


insulto
os meios

dos meus enredos,

desesperado
desprezo

o tempo
e os vãs momentos

que não vivi.

quebraste a casa
e minha cara

rasgaste as roupas
e minha tara;

meu coração
ficou

intacto.

Pierre Tenório