sexta-feira, 27 de novembro de 2015

temos uma linda felicidade
de plástico
igual os carros da infância
que atropelam nada mais
que os próprios medos
de alumínio

a ferrugem não alcança
nossa pele luminosa
de avessos

o futuro é tão imediado
quanto as incertezas

Pierre Tenório

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

se pela música
não há química
metafísica.

Pierre Tenório

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

depois de uma longa semana de pesadelos, no silêncio que me punha
pude ouvir cada nota fora do tom que a música pedia nos ensaios,
aquilo martelava como as cordas de um piano.
distante das geografias do teu corpo, escalei montanhas de lama
à procura de lugares seguros pra descansar o juízo que condena
diariamente nossos atos.
e enquanto o ouvido já pensante construía tudo que queria,
insistindo em não ouvir o desprezo que desafina os olhos,
a boca solfejava uma melodia que quase implorava por acordes:

-meu bem, é preciso aceitar o fado
de amar e se amar sem ser escravo.

Pierre Tenório





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domingo, 8 de novembro de 2015

CASCAVEL

posso sentir de longe
o cheiro da tua pele

meu nariz não alcança
insisto em lamber o medo

na secura que abriga-me os lábios
no fundo do teu segredo

e até propor uma dança
com as sobras da esperança

por mais pequena que seja
é meu presente ao chão

que insistes em desbravar

nu corpo em meus pensamentos
no toque que sempre corre

esse é o tipo de amor
que alimenta a vida;

rastejarei sorrateira
pra alma sugar por inteira.

Pierre Tenório

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

AFOGADO

queria sair correndo
pro longo abismo que crio

a cada passo que deixo
nas profundezas de mim

me desmanchar no caminho da queda
engolir objetos que nunca digiro;

vomitando pedaços e
desatando os laços

do meu vestidinho
pra morrer bem nua

na tua.

queria seguir os caminhos
que insistes despistar

comer alpiste em gaiolas
pra poder me libertar

e ser cozido a lenha
em fogões sem bocas falantes;

podemos ser nosso prato
principalmente quando

ainda estivermos vivos
aos prantos embriagados

com o doce sangue de Cristo;
brincaremos com as hóstias

derramaremos vinho
vamos fazer no altar

o amor de Deus ser real

daí

iremos direto pro inferno
queimar todas as verdades

afinal de contas
você sempre ri de mim

e dessas minhas blasfêmias
quando adentramos a igreja

pra fotografar os santos;

- você precisa sempre postar todos os momentos?

vestimos tudo que é de mentira
e o mundo há de nos despir

sempre

pois no fundo

a queda é sempre rasa
sentiremos ou não

os nadas.



Pierre Tenório

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

teu andar que segue rente
ao meu passo embriagado

indiferente quebranta
por completo o assoalho

que tu mesmo construíste;

tatuando-me a alma
com pedacinhos de farpas.

Pierre Tenório

domingo, 1 de novembro de 2015

DO SANGUE QUE ESCORRE

descanso sem fome
comi toda vida
na noite de ontem

por um só momento
me desconstruí

achei que não era
capaz de fingir

invadindo os fins;

de dentro para fora
há de chegar tua hora

e o fogo tomará conta.

nem sei se estou morta
só quero tomar pra mim
qualquer juventude rubra

no vão das mentes espertas
há sempre uma porta aberta

terei que ficar por fora
transmutando las piedras
em desumanas obras

está nos pingos das velas
está nas gotas de esperma
está no fio da veia

também no medo das tintas
que escorrem lente às telas

estarão profundamente
os buracos dos olhos

aterrorizando o amor.

Pierre Tenório